sexta-feira, 22 de abril de 2011

'MARCELO, MARMELO, MARTELO' por Ruth Rocha





As crianças, muitas vezes, nos falam coisas interessantes.

 Mas é muito engraçado quando elas criam certas palavras.

 Uma vez, a minha cunhada me contou que a filha, um dia, disse assim - quando começou a anoitecer.
- Mãe, já começou a escuriar...
Claro que, naquele momento, a minha sobrinha expressou o que ela entendia pelo contrário de clarear...
É incrível as  comparações que as crianças fazem ao “criar” novas palavras e organizar os seus pensamentos.

Veja só a história do martelo,

quero dizer, do marmelo,

não, do Marcelo...


Contada por Ruth Rocha e ilustrada por Adalberto Cornavaca.

MARCELO, MARMELO, MARTELO.

Marcelo vivia fazendo perguntas a todo mundo:
- Papai, por que é que a chuva?
-Mamãe, por que é que o mar não derrama?
- Vovó, por que é que o cachorro tem quatro pernas?
As pessoas grandes às vezes respondiam. Às vezes, não sabiam como responder.
-Ah, Marcelo, sei lá...
Uma vez, Marcelo cismou com o nome das coisas:
- Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?
- Ora, Marcelo foi o nome que eu e seu pai escolhemos.
- E por que é que não escolheram martelo?
-Ah, meu filho, martelo não é nome de gente! É nome de ferramenta...
- Por que é que não escolheram marmelo?



- Porque marmelo é nome de fruta, menino!
- E a fruta não podia chamar Marcelo, e eu chamar marmelo?
No dia seguinte, lá vinha ele outra vez:
- Papai, por que é que mesa chama mesa?
- Ah, Marcelo, vem do latim.
- Puxa, papai, do latim? E latim é língua de cachorro?
- Não, Marcelo, latim é uma língua muito antiga.
- E por que é que esse tal de latim não botou na mesa nome de cadeira, na cadeira nome de parede, e na parede nome de bacalhau?
-Ai, meu Deus, este menino me deixa louco!
Daí a alguns dias, Marcelo estava jogando futebol com o pai:
-Sabe, papai, eu acho que o tal de latim botou nome errado nas coisas. Por exemplo, por que é que bola chama bola?
- Não sei, Marcelo, acho que bola lembra uma coisa redonda, não lembra?
-Lembra, sim, mas ... e bolo?


- Bolo também é redondo, não é?
- Ah, essa não! Mamãe vive fazendo bolo quadrado...
O pai de Marcelo ficou atrapalhado.

E Marcelo continuou pensando:
“Pois é, esta tudo errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo. E por que será que a bola não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E Bala? Eu acho que as coisas deviam ter o nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não quer dizer nada. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro, lógico! Também, agora, eu só vou falar assim”.


Logo de manhã, Marcelo começou a falar sua nova língua:
- Mamãe, quer me passar o mexedor?
- Mexedor? Que é isso?
- Mexedorzinho, de mexer café.
- Ah, colherinha, você quer dizer.
- Papai, me dá o suco de vaca?
- Que é isso menino?
- Suco de vaca, ora! Que está no suco-da-vaqueira.
- Isso é leite, Marcelo. Quem é que entende este menino?

O pai de Marcelo resolveu conversar com ele:
- Marcelo, todas as coisas têm um nome. E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome porque, senão, ninguém se entende...
- Não acho, papai. Por que é que eu não posso inventar o nome das coisas?


- Deixe de bobagens, menino! Que coisa mais feia!
- Esta vendo como você entendeu, papai? Como é que você sabe que eu disse um nome feio?
O pai de Marcelo suspirou:
- Vá brincar, filho, tenho muito que fazer...
Mas Marcelo continuava não entendendo a história dos nomes. E resolveu continuar a falar, à sua moda. Chegava em casa e dizia:
- Bom solário pra todos...
O pai e a mãe de Marcelo se olhavam e não diziam nada. E Marcelo continuava inventando:
Sabem o que eu vi na rua? Um puxadeiro puxando uma carregadeira. Depois, o puxadeiro fugiu e o possuidor ficou danado.

A mãe de Marcelo já estava ficando preocupada. Conversou com o pai:
- Sabe, João, eu estou muito preocupada com o Marcelo, com essa mania de inventar nomes para as coisas... Já pensou, quando começarem as aulas? Esse menino vai dar trabalho...
- Que nada, Laura! Isso é uma fase que passa. Coisa de criança...


Mas estava custando a passar...
Quando vinham visitas, era um caso sério. Marcelo só cumprimentava dizendo:
- Bom solário, bom lunário... – que era como ele chamava o dia e a noite.
E os pais de Marcelo morriam de vergonha das visitas.



Até que um dia...
O cachorro do Marcelo, o Godofredo, tinha uma linda casinha de madeira que
Seu João tinha feito para ele. E Marcelo só chamava a casinha de moradeira, e o cachorro de Latildo.
E aconteceu que a casa do Godofredo pegou fogo. Alguém jogou uma ponta de cigarro pela grade, e foi aquele desastre!



Marcelo entrou em casa correndo.
- Papai, papai, embrasou a moradeira do Latildo!
O quê, menino? Não estou entendendo nada!


- A moradeira, papai, embrasou...
- Eu não sei o que é isso, Marcelo. Fala, direito!
- Embrasou tudo, papai, está uma branqueira danada!
Seu João percebia a aflição do filho, mas não entendia nada...
Quando seu João chegou a entender do que Marcelo estava falando, já era tarde.
A casinha estava toda queimada. Era um montão de brasas.
O Godofredo gania baixinho...
E Marcelo, desapontadíssimo, disse para o pai:
- Gente grande não entende nada, mesmo!


Então a mãe do Marcelo olhou pro pai do Marcelo.
E o pai do Marcelo olho pra mãe do Marcelo.
E o pai do Marcelo falou:
- Não fique triste, meu filho. A gente faz uma moradeira nova pro Latildo.
E a mãe do Marcelo disse:
É sim! Toda branquinha, com a entradeira na frente e um cobridor bem vermelhinho...



E agora, naquela família, todo mundo se entende muito bem.
O pai e a mãe do Marcelo não aprenderam a falar como ele, mas fazem força pra entender o que ele fala.
E nem estão se incomodando com o que as visitas pensam...



ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. Rio de Janeiro: Salamandra consultoria Editorial S.A, 1976.
Ilustração de Adalberto Cornavaca.


Pai, mãe, avó, avô, estudantes, educadores,


A história esta ai, leia e se delicie com esse gênero -

 história  infantil,

mas gostaria de lembrar que o melhor

 mesmo é a

 criança ter acesso ao livro. É preciso folhear. Ver as

 páginas... os desenhos... os autores... a editora...

.... as letras,

 .... a pontuação,

... as palavras,

 ...e, acima de tudo,

construir o sentido ...

20 comentários:

  1. Prof: gostei muito dessa história do Marcelo achei engraçado a parte que o Marcelo diz:
    - Puxa, papai, do latim? E latim é língua de cachorro?
    É muito bom mesmo parabéns!!
    BEIJOS:)

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  2. É legal mesmo...

    ...quem me apresentou essa história foi a minha primeira supervisora, quando comecei a lecionar...

    Ela lia muito e sempre me contava uma história e aí eu ia ao livro pra conferir...

    bjs, menina!!!

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  3. ... também gostei dessa parte do latim como língua de cachorro...

    E gostei também da sua observação... Fiz um link com essa palavra... vê lá...

    Bjs!!!

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  4. Professora gostei muito do texto MARCELO, MARMELO, MARTELO.
    Muito interessante , muito bom mesmo
    Beijos

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  5. Adorei a historia do Marcelo...Martelo...Marmelo.A historia é bem legal e engraçada também.
    Bjos...

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  6. Que bom, Isabele!! Bem-vinda ao nosso blogger!!!

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  7. É realmente muito bom, Natália!!! E a gente sempre encontra um Marcelo, marmelo, martelo por aí, não é?

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  8. É verdade prof: a gente sempre encontra,mais as fezes a gente se diverte,eu vou tá sempre entrando no seu blog!!
    beijos!!

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  9. É verdade Jayne, é divertido... É bacana esse negócio de lidar com as palavras e dar a elas novos sentidos.

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  10. É também acho que tem vários Marcelos,marmelo,martelos!!!!!Bjos

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  11. Um dia, eu estava com os meus filhos no carro e junto estava uma amiguinho deles. Aí eu reclamei do transito. Falei que havia um engarrafamento... Ele ficou todo sério e falou assim:

    - ah, tá bom... então esses carros estão todos dentro de uma grande garrafa?

    bjão, Natália!!

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  12. amei e bem legal e vou começar a falar assim apartir de hoje beijos!!!

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    1. Gustavo Leandro, é engraçado mesmo falar assim.... Bjs!!!

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  13. Meu filho chegou em casa todo feliz dizendo que leu essa historinha na biblioteca da escola e me pediu para. Procurar na intrernet pra ele ler novamente, achei a história engraçadinha, bem a cara das crianças mesmo rsrsrs

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  14. Evelyn Anjos, que bacana!!! É muito bom quando a criança divide a leitura escolar com a família... É o seu pequeno leitor, parabéns pelo filhão! E que ele continue assim gostando de ler e dividir esses conhecimentos... Grande abraço!! Bjs pra ele!

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  15. Adorei a história do Marcelo Marmelo Martelo! Vou indicar esse site para todos os meus amigos. É um site muito bom! Muito bom meeeeesmo!

    Beijos!

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    1. Cássia Almeida, fique à vontade!! Bem-vinda sempre!! Bjão

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  16. Olha eu acho muito legal e interessante essa historia eu ouvi ela quando eu estava no 4 ano e agora depois de grande resolvi preocurar para reler novamente pq a historia e mto boa q nao tem como esquecer adoro essa historia bjss ( recomendo q leiam)

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  17. Esse livro tem uma importância muito grande para mim. Lembro de quando meu pai contava essa história para nós, cada vez que revejo, releio essa história sinto uma alegria e saudade muito forte ...
    Hoje eu leio para minha filha de 6 anos..
    Rever essas imagens me fazem voltar ao tempo...
    Em breve vou contar para meus alunos também!

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    1. Que bacana, Priscila Lidiane!!! Bom sentir saudades de leituras que nossos pais faziam pra gente!!! Ler com filhos é um jeito de ensinar um caminho bom!!

      As crianças ainda gostam dessa história. Bjs!!!

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